Neymar se destaca na Champions, onde é pouco perseguido

Neymar se destaca na Champions, onde é pouco perseguido

Nos jogos pelo torneio europeu, ele é mais respeitado pelos adversários e árbitros e tem recebido menos cartões

No oito ou oitenta que se tornaram as redes sociais, Neymar tem sido constantemente rotulado como incorrigível. Chegaram até a dizer que ele caminha para a irrelevância, após seguidas polêmicas dentro de campo, pelo PSG.

Nelson Rodrigues bem dizia que a unanimidade é burra e, nestes tempos em que o imediatismo eletrônico levou a uma ilusão, condenar passou a ser sinônimo de extravasar.

A celebridade, mesmo longe de ser perfeita, se torna o alvo dos erros, rancores, indignações e frustrações alheios. 

Mas, sabedora disso, é preciso também tomar conta e se responsabilizar pelas próprias atitudes.

Neymar, às vezes, insiste em desafiar essa máxima da “Mão e a Luva” e abre espaço para o tiroteio de acusações.

Em outras, o tiroteio de acusações é que faz de Neymar um bode-expiatório da fragmentação da alma humana.

O estilo de jogo de Neymar, baseado na criatividade e irreverência, é um bem para o futebol.

O momento atual e as contradições do país em que ele joga, porém, se refletem de forma intensa sobre ele.

A intolerância tem prevalecido neste momento. Ódios afloram e atacam tudo que é mais visível, no caso, a celebridade. O incômodo que Neymar desperta tem um caráter sociológico.

Freud, tão esquecido por muitos nesta época, definiria essas questões como vazios existenciais, que alimentam paranóias, perseguições, inveja.

Tal situação acaba se intensificando em um país como a França, fruto do permanente conflito entre a liberdade e a arrogância, o desenvolvimento intelectual e a miséria humana.

A sociedade que produziu Proust, Foucault, Sartre e Alain Resnais, é a mesma que tem incrustrada o antissemitismo, a petulância e o egocentrismo em seus alicerces.

Proust, aliás, teve a grandeza de expor todas as feridas desta sociedade francesa que, em boa parte, continua neste conflito entre ser exemplo de diversidade e estar ao mesmo tempo voltada para si.

O país que definiu Pelé como Rei e Atleta do Século é o mesmo que se fecha para a descontração dos brasileiros.

A sociedade que defende a igualdade é a mesma que torce o nariz para imigrantes e os desloca para as periferias empobrecidas das cidades.

O futebol que tem no PSG um clube acolhedor para Neymar é o mesmo que mantém adversários pouco receptivos ao seu estilo.

A fórmula é tão contraditória que os próprios jogadores, a maioria descendente de imigrantes, acabam sendo os maiores perseguidores de Neymar em campos franceses, sentindo raiva de qualquer movimento do jogador, o apontando de forma distorcida como um Macunaíma (protagonista preguiçoso e egoísta, da obra de Mário de Andrade).

De Macunaíma, Neymar não tem nada. Além de não perder treinos, o que se sabe é que ele tem trabalhado com intensidade durante toda a sua carreira.

Tal definição acaba sendo encampada por grande parte da mídia. Fica claro, porém, que, na França, o peso das críticas a Neymar é excessivo. Independentemente de sua postura e sua visão de mundo infantis em algumas situações.

Os números apontam algo neste sentido. Neymar é frequentemente caçado, provocado, xingado.

Os árbitros muitas vezes têm mostrado um rigor implacável com Neymar e uma condescendência com as entradas violentas que ele recebe.

A irritação dele, portanto, tem uma origem clara. E está dentro desta fórmula complicada da sociedade francesa. De ideias, diversidade, imigração e intolerância.

Dados da Transfermark mostram que, em 35 jogos, na Copa da França e no Campeonato Francês, ele recebeu quatro cartões amarelos e dois vermelhos, desde setembro último.
Já na Copa dos Campeões, mais cosmopolita, há claramente um ambiente menos hostil ao jogador.

O jogador também recebe uma marcação dura mas, frequentemente, vê a mão do adversário buscando reerguê-lo. Sua relação com o ferrenho adversário Alaba, por exemplo, é das melhores.

Não é coincidência, portanto, que em seus 10 jogos na Liga dos Campeões, nesta temporada, desde outubro, ele tenha recebido apenas dois amarelos e nenhum vermelho.

Por mais qualidade que tenha Mbappé, a marca PSG perde muito mais quando Neymar não está em campo.

Neymar já mudou o PSG de patamar. Sua chegada foi definitiva para colocar o clube no rol dos grandes.

Mas, especialmente na França, para se fazer sucesso, até Garrincha precisaria driblar essas contradições. E, muitas vezes, a própria imagem.

FONTE: R7.COM

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